Na mata mais virgem e recôndita do nosso coração há uma centelha esquecida da nossa inocência.
Podemos tocar-lhe ao de leve mas jamais recuperaremos do assombro.
Como um sopro de Deus, a mais pura e destilada pureza de sentimentos pode ser esmagadora.
Vi-a despontar num doce olhar de uma caboclinha de cabelo terra cota e cinta de sementes, pulando nos riachos com o seu tatu.
A fazenda de meu pai era muito bem guardada por um exército de homens armados e criados vigilantes. Minha avó paterna criava-me com muito zelo e vivíamos numa dormente ostentação.
Brincava, fazia teatrinhos, dançava todas as tardes para a minha avó, que agitava seu leque com aprovação enquanto impulsionava a cadeira de baloiço de palhinha gasta.
O palco de tábuas improvisado era o meu escape, nele imaginava-me a brilhar como as grandes estrelas sul-americanas da dança daquela época. Meu pai era um homem poderoso e dominava militarmente a fronteira entre os dois países. Todos o temiam e o obedeciam, pois até os mercados da zona circulavam sob a sua tutela.
Na minha gaiola dourada, no marasmo dos meus dias de menina rica, sem liberdade nem verdade, tudo parecia perfeito mas certo dia cruzei-me com a pureza perdida do mundo.
Sim é verdade, podemos tocar-lhe ao de leve, almejá-la mas não podemos guardá-la em nós.
A recordação, a contemplação e a proximidade, que podemos sempre cultivar, é o único e o mais belo caminho.

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