domingo, 30 de janeiro de 2011

A Justiceira




Foi num fim de tarde, ao subir uma rua de pedra gasta junto à velha muralha com a minha família, que ouvi um clamor tão profundo que o chão tremeu debaixo de meus pés. O meu coração abrandou ao ritmo do lento compasso. A melodia vibrava densa numa marcha crescente e palpitante, vinha de muito muito longe e expandia-se na nossa alma como se de um fosso estivesse prestes a despontar um dragão enfurecido.
Empedernida com o deslumbre, avisto uma caravana de quatro músicos ladeando uma majestosa rainha coroada de um enorme tocado de medalhas de ouro que lhe desciam até aos ombros, acompanhando os seus longos cabelos.
Era uma mulher alta e voluptuosa. Os seus quadris eram fortes e balanceavam sinuosos debaixo de uma túnica pesada de veludo cor de sangue cravejado de preciosíssimas pedras e medalhas, que se abria a cada passo ao irromper de cada perna.
Seus passos eram firmes como se lançassem raízes de visões longínquas que não conseguia compreender.
Debaixo de uma gaze emaranhada de véus mais leves que o ar e da pesada túnica, a misteriosa dama trajava umas calças balão em seda damasco que rompiam as mil correntes do seu cinto ao ritmo tumular daquela marcha, cada vez mais perto, cada vez mais dentro...
Eu não entendia a origem daqueles tecidos espantosos que eu nunca vira, não conhecia a tradição por detrás daquele sumptuoso traje que lhe cingia o corpo em linhas e detalhes surpreendentes. Jamais vira o exotismo daquela joalharia, daqueles ornamentos fantásticos.
Cada músico tocava um instrumento diferente e muito peculiar, vestindo longas túnicas brancas alinhadas, chapéus e sandálias arabescas. Mas não estou certa se emanava música dos seus instrumentos pois o clamor de fundo abafava o mundo.
Questionava-me quem seria a Rainha em tão altivo cortejo?
Esta enorme curiosidade, o deslumbramento e a força tomou-me sem apelo nem agravo, semeando em mim um desejo intenso de saber quem ela era, que fazia ali e o que anunciava o tenebroso som.
Algo estava prestes a acontecer. Respirava-se uma atmosfera de anúncio imperial. Eu sabia que ela só poderia ter descido aquela rua por algum motivo gravoso e solene. Eu não sabia porque sabia aquelas coisas, apenas sentia-as. Sentia que ela desceria a rua só uma vez e assim o fez...
O seu olhar esfíngeo e imperturbável  tatuado a kohl brilhou cintilante e levantando o braço esquerdo, desenhou no ar um gesto súbito de corte transversal e lancinante com a mão.
Foi como se uma espada se abatesse sobre todos nós.
E centenas de cabeças de negros núbios rolaram rua abaixo num mar de sangue.
O medo era um ar frio entre os dentes.
Mas no meu coração, eu sabia que tinha sido feita justiça.
Sentia-me protegida.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Mar de Fé




Os passos foram sozinhos lá ter...
Foram se chegando à espuma da beira mar...
Olhei lá para o fundo do mundo...
E perguntei...
Oh Meu Pai, é este o teu reflexo?
Não há tempo nem matéria nem fim quando entro nas tuas águas?
Que força é esta que me lava e estanca, que me segura e levanta?
Que comoção profunda é esta que sinto quando o mar chora em murmúrio?
Que amor é este que vence todas as procelas ?

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sublime Pureza



Na mata mais virgem e recôndita do nosso coração há uma centelha esquecida da nossa inocência.
Podemos tocar-lhe ao de leve mas jamais recuperaremos do assombro.
Como um sopro de Deus, a mais pura e destilada pureza de sentimentos pode ser esmagadora.
Vi-a despontar num doce olhar de uma caboclinha de cabelo terra cota e cinta de sementes, pulando nos riachos com o seu tatu.
A fazenda de meu pai era muito bem guardada por um exército de homens armados e criados vigilantes. Minha avó paterna criava-me com muito zelo e vivíamos numa dormente ostentação.
Brincava, fazia teatrinhos, dançava todas as tardes para a minha avó, que agitava seu leque com aprovação enquanto impulsionava a cadeira de baloiço de palhinha gasta.
O palco de tábuas improvisado era o meu escape, nele imaginava-me a brilhar como as grandes estrelas sul-americanas da dança daquela época. Meu pai era um homem poderoso e dominava militarmente a fronteira entre os dois países. Todos o temiam e o obedeciam, pois até os mercados da zona circulavam sob a sua tutela.
Na minha gaiola dourada, no marasmo dos meus dias de menina rica, sem liberdade nem verdade, tudo parecia perfeito mas certo dia cruzei-me com a pureza perdida do mundo.
Sim é verdade, podemos tocar-lhe ao de leve, almejá-la mas não podemos guardá-la em nós.
A recordação, a contemplação e a proximidade, que podemos sempre cultivar, é o único e o mais belo caminho.

Negra do Ouro




Conheço-lhe os mil penteados e vestidos dourados...A negra tem uma vaidade de rainha e quem a avistou, não a esqueceu jamais. Quando pisa terra firme, com suas coxas volumosas e juba fibrosa, ganha porte de leoa e enfeitiça todos os olhares só com o seu inesquecível caminhar.
As mesmas braceletes e argolas maciças que iluminam a sua pele mestiça no fundo do rio, amontam-se nos seus braços e pescoço num vibrante chocalhar, fazendo adivinhar a sua chegada e prolongando a sua partida num eco metálico e luminoso. Neusa é rainha, do fundo do fundo ao cume mais alto. Neusa é guerreira da savana e nadadora dos fundos rios. Seu movimento é perpétuo e pesado como o mais maciço, o mais puro ouro. Sua vinda é uma peneira, cindindo poeiras do verdadeiro minério. Nada passa pela rainha que não seja para ficar.

Dona Neusa, faça favor de passar!

Elo Cigano

Embalada pelo vento, Varya caminha serena pelas encostas verdes do acampamento, suas saias parecem duas enormes asas a levantar voo.
As velhas botas cor de canela atadas com fitas de cetim vermelho estão manchadas pelo orvalho das ervas. Varya queria tanto descalçar-se e enterrar seus pés nesse manto verde de frescura, seus pés até levitam de liberdade mas não pode arriscar-se a perder os velhos botins feitos por seu pai. Esta derradeira lembrança da família tem a benção encantada que a protegerão por todos os caminhos que cruzar. 
Apressa-se então a entregar as suas coroas às ciganas solteiras que a abraçam com uma profunda gratidão. Muitas estão enamoradas e felizes, outras sonham com a sua primavera, todas acorrem aos bons augúrios trazidos pelas coroas de flores do campo. As rosas selvagens foram cozidas no cizal pelas delicadas mãos da ciganinha na noite anterior enquanto cantarolava para a lua cheia e todos os espinhos foram enterrados fundo na terra. 
Um cigano só deixa o seu clã para unir os demais num elo inquebrável de luz.

Minha Vóvó




A saia clareia na espuma do mar e suas mãos gretadas de argila seca afundam-se nas águas vivas por alguns momentos até seus dedos se desentorpecerem completamente. De olhos fechados, tomba seu rosto na linha de água e sacode-o com um sorriso feliz.  Só no mar seu peso foge e sua cintura parece ágil...está pronta a caminhar.
Mariana não perde a força com o passar do tempo porque a força de Mariana é a força do tempo.
No cesto de ráfia traz uma pilha de conchas partidas e pedrinhas polidas pelas ondas para enfeitar seus potes, mas sempre olha para aqui e acolá, a ver se encontra mais, ou um coco caído para as crianças, sempre atenta, segue vagarosamente para a aldeia. Caminhos se encurtam, sombras se alongam, brisas se refrescam na passagem da Vóvó Mariana. 

domingo, 16 de janeiro de 2011

O Mestre

Por mais esquecidas que estejam as tardes que passei na casa de meu mestre, os tempos de tão outrora não terão levado levianamente os seus ensinamentos e muitas imagens avultam quando penso em algumas de suas sábias palavras: "a mulher consegue tudo com o olhar".
Sentado no banco tosco de pau sobre uma almofada de pele fofa, com suas sandálias desalinhadas no tapete verde gasto repleto de livros amontoados e a singela mesinha de chá em vidrilhos coloridos debaixo da janela, sempre com os nossos copos à nossa espera. Ele gesticulava com fervor e nós bebíamos cada palavra do nosso querido professor. De nada serviria o ofício da dança ensinado por nossa mãe, sem o seu maravilhoso legado de conhecimento. Suryo fez-nos mulheres de todos os tempos, doutrinou-nos e encantou-nos com a nossa própria magia.

Correntes da Chuva

Correntes de chuva tilintam num eco vibrante mata-a-dentro.
Chovem torrentes de luz, alagando as trilhas, derramando os leitos, espumando nas cachoeiras cristalinas e nos recônditos altares de água pura.
Sua música é um chamado profundo e clemente de mãe.
Relâmpagos iluminam a aldeia num reflexo assombroso como se um arco-íris explodisse no céu.
Caboclo Trovoada percorre os círculos de protecção e uma espiral de gente desenha-se no chão sagrado da tribo, louvando à chuva, aos céus, acudindo a seus filhos em prece.

A Origem


Um rio murmurante de cânticos inunda-me numa cálida vertigem e faz emergir um semblante em relevo nas águas, emoldurado pelos cabelos de mil entrançados de juba negra.
A rainha voltou a arrebatar-me e suas feras circundam meus passos com feroz dedicação, ajoelho defronte o corpulento leão e abraço-o, à origem.
Doravante vencerei todas as procelas que em teu olhar me fitam.
O medo contra a face.
O tempo contra a vertigem.

Tenda Perfumada

A lamparina por encher denunciava a noite mal dormida, as mantas revoltas e as rosas desfolhadas na tina de água supunham uma noite de febril paixão ou o derradeiro encantamento de amor...
Varya despertava do sono com uma preguiça deliciosa pois nada a esperava, apenas um novo amanhecer luminoso e fresco, como a sua pele de menina. Na sua terra natal, o gelo teria inundado a entrada da tenda, mas ali a erva já estava aquecida com o primeiro sol da manhã e o chilrear das andorinhas trazia-lhe doces lembranças dos casamentos das primas, sempre celebrados nas primeiras semanas da Primavera. Coroas de flores amontoadas numa cesta aos seus pés encheram-na de orgulho, eram o fruto de uma noite de trabalho dedicado. A ciganinha ansiava colocá-las nas tendas do acampamento que a acolhera. Doravante, será estrangeira entre estrangeiros, irmã entre irmãos, mais uma borboleta da grande família cigana esvoaçando pelo mundo a fora.

A Última Caravana

Ardia-me os olhos só de pensar no abrasador caminho até ao grande palácio. Uma vez fechados os grandes portões, ficaria para trás o pôr-do-sol no velho deserto e todos os medos que nele raiavam. Volvidos os tempos de meticulosos preparativos, em que bordámos nossos panos e escovámos nossos cabelos com ricos óleos, eis que chegara a hora de encher o fôlego e içar nossas arcas de sândalo no camelo enviado por Lavinkia. Prendemos nossos cabelos nos tocados de viagem, enrolados em panos fortes para que não se empoeirassem antes do grande momento e beijámos o cálido rosto de nossa mãe. Os caminhos velados pela nossa fiel guardiã abriam-se às sandálias ainda frescas do nosso chão de casa. Não receávamos emboscadas pois os temerários homens de Lavinkia guardavam nossa caravana. A longa jornada lançou-nos no doce balanço do sonho e fomos tomadas pelas recordações que guardávamos de tão esplendoroso palácio. Percorri o sumptuoso templo rosa marmóreo, salão após salão, repleto de gaiolas de ouro suspensas e incensários grandiosos cravejados das mais ricas pedras, passei meus dedos pelas sedosas grinaldas de véus coloridos que caíam das gigantescas palmeiras, ajoelhei-me nas suaves tapeçarias e petisquei das salvas de fruta e vinho, lavei meu rosto nas fontes perfumadas, guardei os segredos da luxúria dos homens.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Tapui


Na fazenda de meu pai eu dancei com uma cabocla que me chamou Tapui. 
Nos seus olhos vi o que só poderia ser Deus a sorrir numa infinita e intocável pureza.
Segui minha amiga, nos caminhos da mata fechada e ela me prometeu que nunca me perderia. 
Voltei à fazenda mas nunca mais voltei a mim. 
Os olhos da cabocla eram agora os céus que fizeram inteira a minha alma.

De Profundis






No fundo escuro de um rio africano, os primeiros raios de luz da manhã desenharam as linhas longilíneas da Nadadora.
Portentosas pulseiras de ouro maciço sustentam as fortes colunas de ébano de seus braços e uma reluzente tiara de ouro martelado ata seus cabelos como cordas no mastro.
Neusa reina linda e forte, suspensa no seu trono de vegetação em movimento.
Sua pele adocicada pelo óleo de palma veste-a de uma noite estrelada de gotículas cintilantes e quando o sol nasce, seca-se, reclinada na beira do rio.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Livre na Eternidade


O acampamento estava em festa, Varya rodopiava suas saias em redor da fogueira, sacudia seus negros cabelos ao vento, batia palmas com alegria e sorria com seus olhos de mongol a quem se deliciava com o seu requebro cigano. Ela era tão livre quando dançava que o tempo fugia.
Nesse fim de tarde, o seu clã partira sem ela. Desolada, a linda ciganinha ainda correu pela estrada de terra com suas lágrimas a lavar-lhe a poeira do rosto, mas já não avistava a família.
Varya conhecia bem sua sina cigana e sabia que, tal como todos os ciganos, seria livre nos caminhos da vida...

A voz dos Guias

Num bazar perdido no coração do Cairo duas irmãs segredam envoltas em seus vaporosos véus. As suas vestes e jóias distinguem-se na multidão, trajam nobres e esvoaçantes túnicas bordadas a fio de ouro e pedrarias sob umas calças balão de seda. São dançarinas do Clã de Lavinkia. Após as compras nas ruas povoadas da cidade, acorrem, de sombra em sombra, à casa do seu mestre Suryo para mais uma tarde de aprendizado. Saluskia trespassará o portal do tempo com suas lâminas de tarot pintadas a vibrantes cores e contornos dourados. Meleah lerá os caminhos da vida nas mãos de seus criados para treinar as doutrinas do mestre e a voz dos Guias. Nenhuma das duas irmãs sonham quem serão um dia, nem quem será sua fiel guardiã para toda a eternidade. Nostra Lavinkia...


Sete Portais, Sete Véus

Será que os cânticos do deserto não perfumam mais teu coração quando o sol se põe? Será que o resvalar da areia grossa na pedra não te r...