Passeio pela feira e cumprimento as minhas amigas na tenda da sua casa espiritual, juntas, trabalhando. Meus olhos ardem cada vez mais como estivessem numa fogueira flamejante.
Meu coração sente o orgulho e a veneração da minha Rainha por aquela casa.
A ruidosa multidão da feira é subitamente tomada por um silencioso assombro de mil olhos presos numa outra tenda que exibia artefactos de dança oriental. Um insuspeito manequim que exibia um exuberante traje de dançarina parece começar a emanar vida...
A estátua inerte e esquecida move-se em linhas deslizantes, humaniza-se perante o povo boquiaberto e dela surge uma mulher de beleza sumptuosa, estatura alta e forte, pele dourada e traços impressionantes.
Seus olhos alongam-se de forma amendoada em vibração visceral como duas luas negras.
Os longos cabelos negros ondulam suspensos num vento demorado e rodopiante.
De porte imperial, surge coberta de pesados mantos e pedrarias cintilantes, de toucado pesado e precioso de medalhas e rendilhados, os véus de organza bordados a ouro pendem dos braços adornados...
Os nossos olhos ardem e o corações gelam.
O tempo pára. As estátuas somos nós...
Somente ela se move num tumular balanço.
Desliza suave e angulosa do palanque da tenda e dança frente a frente da multidão, erguendo os dois braços unidos ao alto e arqueando-os para trás, como carregasse um insustentável e temido sabre que demora séculos e séculos a cair...
Invisível, impiedoso e infalível,
qual a mais cega justiça dos tempos.
Olho no olho, desenha-se o corte lancinante e final.
Meus olhos semicerram-se e mergulho num túnel de esquecimento momentâneo e visões incríveis...