domingo, 5 de junho de 2011

Sem correntes

Peter sonhava casar e levar toda a família para o Mar. Mostrar-lhes todos os milagres que presenciou: as cores do pôr-do-sol na China, os comboios que riscavam surpreendentes imagens de fumo nos céus, os golfinhos no seu sorriso infantil...
 E no regresso a casa, Peter escutava a música que saía das capelas de tabuinhas brancas perdidas nas margens verdejantes e frescas do Mississipi, despedindo-se do seu companheiro-Mar, por breves instantes. A alegria e a música dos escravos abraçavam-no calorosamente à chegada como uma grande família.
Peter buscara a muito custo na sua solidão oceânica o que estas gentes naturalmente encontravam na sua dura prisão - luz e liberdade.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

A Escolha


Passeio pela feira e cumprimento as minhas amigas na tenda da sua casa espiritual, juntas, trabalhando. Meus olhos ardem cada vez mais como estivessem numa fogueira flamejante.
Meu coração sente o orgulho e a veneração da minha Rainha por aquela casa.
A ruidosa multidão da feira é subitamente tomada por um silencioso assombro de mil olhos presos numa outra tenda que exibia artefactos de dança oriental. Um insuspeito manequim que exibia um exuberante traje de dançarina parece começar a emanar vida...
A estátua inerte e esquecida move-se em linhas deslizantes, humaniza-se perante o povo boquiaberto e dela surge uma mulher de beleza sumptuosa, estatura alta e forte, pele dourada e traços impressionantes.
Seus olhos alongam-se de forma amendoada em vibração visceral como duas luas negras.
Os longos cabelos negros ondulam suspensos num vento demorado e rodopiante.
De porte imperial, surge coberta de pesados mantos e pedrarias cintilantes, de toucado pesado e precioso de medalhas e rendilhados, os véus de organza bordados a ouro pendem dos braços adornados...
Os nossos olhos ardem e o corações gelam.
O tempo pára. As estátuas somos nós...
Somente ela se move num tumular balanço.
Desliza suave e angulosa do palanque da tenda e dança frente a frente da multidão, erguendo os dois braços unidos ao alto e arqueando-os para trás, como carregasse um insustentável e temido sabre que demora séculos e séculos a cair...
Invisível, impiedoso e infalível,
qual a mais cega justiça dos tempos.
Olho no olho, desenha-se o corte lancinante e final.
Meus olhos semicerram-se e mergulho num túnel de esquecimento momentâneo e visões incríveis...

Sete Portais, Sete Véus

Será que os cânticos do deserto não perfumam mais teu coração quando o sol se põe? Será que o resvalar da areia grossa na pedra não te r...