Uma nuvem negra de forma humana caminha sem som, sem movimento, nem humanidade.
Parece um homem e acerca-me, desvitalizando-me a vontade, a memória e a força.
Não tenho muito tempo, porque ele vence-o e eu não.
Ainda sou matéria, estou presa na minha matéria.
Ele deslizou pelo corredor viscoso e tumular e chamou-me.
Apontou-me aquele que seria o meu quarto, eu assenti e sorri resignada, sem vontade de sorrir.
Era um sinal inequívoco que perdera a vontade para aquele ser. Sorri sem sorrir. Entrei sem entrar.
O sorriso de prisioneira resignada domou-o por instantes mas na minha mão apertava a chave gelada cor de cobre da minha alma. Ele entrou na minha frente confiante que tinha ganho a seguidora que tanto ambicionava, eu fechei-lhe a porta à chave por fora.
Fui mais rápida que o tempo. Parece que o também domei o tempo ao domá-lo.
A porta foi albarroada por estrondos que a deformaram, mas não cedeu.
Cárcere desta matéria presa ao mundo - o meu corpo entorpecido pelo medo - faço-a correr com a certeza que facilmente o monstro transporá a porta e me destruirá. Outros surgirão da legião infinita.
O corredor em U era um beco com duas janelas fechadas com tijolo.
Pelas janelas percebi que estava numa cave. A almejada rua estava por detrás. Mas não podia derrubar o muro de tijolos. Estava encurralada!
Então escondo-me por detrás de um armário. Único movel num corredor negro de portas trancadas.
Ele surge. Só sei que ele lá está. Não posso espreitar por detrás do móvel-evidente-esconderijo.
Não o oiço, mas quase que o cheiro, sinto-o num aperto no coração que corta o ar, num arrepio na nuca, nos meus olhos tão pesados e no medo, muito medo.
O meu coração explode. Sinto que é o fim.
Um feixe de luz irrompe a meus pés e toca-me ao de leve.
Torno-me translucida, imaterial ao seus olhos.
Ele não entende como eu escapara e saiu para a rua no meu falso encalço.
Pois a janela estava aberta, os tijolos no chão e a argamassa ficara líquida como lava.
Após a saída da besta, uma mulher vestida com uma túnica de luz me convida a sair pela janela.
Estende-me a mão de pele alva e reluzente como um convite.
Para ser ser livre.
Quando toda a obsessão falha, o sequestro espiritual é a derradeira tentativa desta legião para silenciar, para evitar a aprendizagem e para se alimentar do que serias, do que foste, do que sabes e aspiras. Tudo em ti busca a verdade e ainda te recordas dela, da verdade primordial e um dia destes todos recordarão contigo. Sê livre por dentro.
"Teu nome Legião, Meu nome Amor" diz a voz celeste da minha resgatadora.
O meu coração repete, assim seja.