terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Maria me salvou


As sandálias douradas estão cheias de poeira e calcam ruidosamente a pedra da barra, o mar arrebenta e estala em explosões de espuma verde, parece que a tempestade vai chegar. Encosta-se no candeeiro de ferro antigo para recuperar força e os homens lançam as frases do costume. Nada acontece de novo, mas parece que as chaves ficaram esquecidas no bolso do camarada. Lá estava ele sentado no banco ao lado de um velho de fato negro. Quem seria? Vou voltar para trás, caminhei caminhei caminhei. Mas o mar invadiu a praia, furou a barra e levou-nos aos dois. Agarrados a um carro só paramos num morro de casas de barro. O carro ainda pega? Vamos nesse carro então camarada. No espelho meu cabelo vermelho pelo queixo ossudo emoldura meu rosto gasto e sedutor. Vamos para a sua casa camarada?
Eu
Vejo-o entrar com ela. O cabelo dela era vermelho muito vivo, parecia fogo. Estão enamorados e nem me vêm. Minha barriga enorme lateja, entro pela casa a dentro. Na cozinha a avó dele e a minha. A avó dele deita-o numa tenda e tapa-o com mantas. Parece trata-lo de uma enfermidade súbita qualquer. A minha mexe nos tachos e diz que tem de ir ter com todas as amigas que a esperam em Elvas. Fiquei a pensar quem ela conhecia em Elvas e vou à casa-de-banho. Pelas pernas escorre-me sangue espesso e quente, cai uma placenta fechada. Agarro-a em lágrimas, rasgo-a, um boneco todo cozido nas mãos, pés, na cabeça...

Brincadeeeeeeeeira!, diz a dama ruiva fumando, com um esgar de espanto e revolta.
Eu trato disso, remata apagando o cigarro.

Laroye Maria Ruiva, estás para sempre no meu coração.

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