sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Gratidão

Uma voz mulher num tom amável  diz-me "queres saber o que realmente aconteceu, minha filha?" e passa-me a mão macia e leve pelo rosto, reenviando-me para outro plano, outro cenário:

Surjo numa casa que não me é estranha, parece uma cave, com janelinhas junto ao tecto. Estou cheia de medo, corro para o quarto dos meus pais...
"Mãe posso entrar? Estou com um pressentimento terrível"
"Entra, deita-te aqui com a mãe a descansar"
(Senti medo de não conseguir proteger a minha família.)
"Mãe?"
"Sim querida"
"Onde está a minha filha? Onde está o pai?"
"Ela está com a avó, lembraste-te? O pai  deve estar a voltar"
"Ele está a demorar tanto, mãe"
Ouve-se o barulho da porta da rua a abrir e a minha mãe diz logo, sorrindo "Vês, é ele"....
Senti que não era. Aquela não era a nossa casa. Mas não tranquei a porta do quarto, deixei que o invasor entrasse. Sentia-me protegida e firme no meu coração, apesar de parte de mim temer pela minha mãe...

A porta abre-se devagar e entra no quarto um frágil idoso de cabelos grisalhos, alto, magro, débil e de pele muito vincada pelo tempo ( nunca tinha visto uma pessoa com tantas rugas e tão fundas, parecia ser centenário). Vestia uma bata de médico, luvas cirúrgicas e uma seringa que mais parecia uma espingarda com silenciador, envolvida numa papel vegetal branco. A minha mãe paralisou e perdeu a fala. O homem pronuncia-se enluvado de escárnio.

"Ah! Finalmente posso ver-vos, mãe e filha, tão unidas! São tão amigas, é tão bonito...." 

Saí debaixo das mantas, aproximei-me dele e sorri. Ele sorriu de volta...

"Deixa-me ajudar, eu agarro na tua bengala, pobre homem" e retiro-lhe a seringa de rompante.

Ele desvanece-se num vórtice minúsculo e no mesmo segundo a minha mãe começa a mover-se e a recuperar a fala. Puxo-a pela mão e corremos pelo corredor para a porta da rua, mas ao chegar à porta vejo pela janela que a casa estava cercada por chineses. Era um exército. Todos eles tinham morto crianças quando estavam encarnados. Vi-lhes os rostos pequeninos e elas resgataram-me com as suas mãozinhas para um outro plano.

Momentos antes do resgate, ainda senti, nas minhas costas, o homem a reaparecer.

No outro plano, eu e a minha mãe fomos calorosamente recebidas por familiares. Uma prima nossa que faleceu aos 10 anos que tinha o nome da minha mãe, sobrinha do pai dela, abraça-a e dá-me um beijo na testa. Imensas crianças comem lanchinhos e doces em pequenas mesas, há muitas flores, borboletas, pássaros coloridos e sol... muitas brincam. Procuro a minha avó, sinto que está perto. Aproximo-me de uma criança e ela diz-me que ela costuma estar por ali sim mas naquele preciso momento está a brincar com a neta num lugar muito seguro e especial. 
A minha alma sorriu de felicidade e de alívio. Essa mesma criança traz-me um livro e dá-mo.
"Toma um recado"...

Abri o livro de madeira tosca com um ferrolho de cobre. Era uma caixa oca, com um cheiro floral, inebriante. Lá dentro, as letras desenhavam-se numa espécie de tinta de luz. 
Em bom rigor, a mensagem não era esta que aqui escrevo. Não se trata de uma transcrição exacta da mesma, mas ainda que não sejam estas as palavras, eram estas as ideias. Ainda assim, algumas breves passagens eu relembro com uma assustadora clareza, como estivessem tatuados na minha memória:

"É verdade que a obsessão se deve à falta de vigilância do obsidiado", contudo, a interferência espiritual negativa pode ser independente dessa vigilância e muitas vezes trata-se de um "ataque dirigido ao medium que pretende iniciar ou iniciou o seu desenvolvimento numa corrente e traz com ele a missão", com o intuito de a aniquilar.
Muito embora, neste caso, não haverá uma situação de permanente obsessão, graças ao auxílio dos guias, mentores e parceiros de corrente através do sucessivo desligamento destas entidades negras."Raras vezes, os magos negros mostram o seu rosto. Raras vezes, o obsidiado consegue ter uma visão conjunta da legião". Quando tais forças se desvendam, é por acção e advertência de nossos guias e mentores, pois "chegou a hora de o medium seguir a sua missão de auxílio e resgate".

Minha Guia então disse: "Entendeu filha, o único auxílio que podes te permitir receber é auxiliar de volta"

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